segunda-feira, agosto 27, 2007

O ombro do pecado

Domingo. Dia Santo. Deu-se milagre: antes da sete da manhã já eu estava levantada para ir turistar por aí. Plano: ir a Haifa, onde existe um templo Bahai, uma religião que reúne as personagens importantes das outras religiões, de Moisés a Buddha, passando por Jesus e Maomé, e os considera a todos profetas bahai (abstenho-me de comentar).
Chegada a Haifa, a fome começou a apertar, que o corpinho não está habituado a levantar tão cedo, ressente-se, coitadinho. Mulher prática que sou, resolvi pôr-me a andar em direcção ao tal templo, até porque aquilo era num monte bem alto e ia levar tempo a chegar lá. No caminho, pararia num café. Só que a terceira maior cidade de Israel, que se orgulha de tanto trabalhar ("In Jerusalem you pray, in Tel Aviv you play, in Haifa you work"), não tem cafés! Restaurantes de falafel e shwarma a tresandar a fritos logo às nove da manhã é aos pontapés! Cafezinho com croissant, nem vê-lo! Isto, a juntar às subidas íngremes da cidade, ao calor que já fazia e ainda não eram dez da manhã e às gotas de suor que já me escorriam pela testa e costas, não augurava nada de bom.
Sem croissant e ainda enjoada com o cheiro da falafel, lá avistei a entrada dos jardins do templo. O segurança que estava nos portões vem ter comigo e diz-me que aquilo é um lugar santo e por isso eu não podia entrar com os ombros à mostra. " Mas eu não tenho os ombros à mostra, até tive o cuidado de escolher esta t-shirt exactamente por causa disso" - pensei eu na minha ingenuidade. Qual quê! Estavam ali dois dedos de pele a descoberto que enlouqueciam Deus! O facto da t-shirt ser um pouco curta e desnudar parte da minha barriga não importava, mas aquele pedaço de pele, ali na fronteira entre o ombro e o braço era demasiado erótico e poderia perturbar o Senhor lá de cima que, ao que parece, tudo sabe e tudo pode, mas que só deve ver a pouca vergonha de um ombro semi-desnudado quando este lhe aparece às portas do jardim. Aí, Deus fica que nem pode! Terá medo de cair em tentação e não ter ninguém a quem recorrer para O livrar do mal?
Este pessoal mata em nome de Deus (e não são só os muçulmanos!), homens, mulheres e crianças, estropiam-se uns aos outros sem piedade, é só sangue e tripas de fora, mas um ombro à mostra... vade retro santanás... mulher perdida na vida!
Ainda fui procurar uma loja para comprar um lenço que cobrisse o ombro do pecado (e um café aberto... sim, ainda), mas claro, numa cidade onde não se encontra um sítio para tomar o pequeno-almoço, também não se há-de encontrar uma loja que venda lenços.
Conclusão, fui-me embora. Do templo bahai e de Haifa.
No fundo, acho que isto foi um sinal de Deus a dizer "Lá por estares na Terra Santa, não te entusiasmes que Eu não quero nada contigo". Pois, o Senhor que não se preocupe que o sentimento é mútuo.

9 comentários:

Insano disse...

Lembra-me quando visitei a Catedral de Léon no ano passado, onde tiha um cartaz de como se devia vestir, aquando da visita ao Monumento. Pensei na altura, até para se ter fé é preciso vestir de acordo com.... o senhor lá deve ter entendido isso...

No entanto, a ironia foi quando me deparei com um terminal VISA para doações... isto da Fé também avança.. depende é da perspectiva...

Cheers,

Caroli disse...

Às vezes gabo-te a paciencia.. Desta vez gabo muito!!

O lado positivo é que deu material para mais um grande post.. continua a ser um prazer vir aqui todos os dias.

Beijos e saudades

sueli halfen ( POA) disse...

Susana,sou do Brasil e tenho uma curiosidade: tu,na adolescência não te correspondia com um rapaz brasileiro chamado TEO?

se afirmativo me manda email

suhalfen@gmail.com

Obrigada...

Susaninha disse...

Sueli,
Não sou eu. Lamento.
:)

Bruno disse...

Olá Susaninha

Gostei muito do teu post, ainda mais admiro a atitude e a coragem de ir trabalhar para terras tão... inóspitas...

Força aí

René Alan disse...

Ola... Gosto de como escreves, sem medo de ofender, de dizer umas asneiras, de ser intima e com bom sentido de humor... é refresh! (nao gosto da palavra refrescante, nao soa bem e nao tenho outra a mao, nem tenho acentos, by the way, sorry) e ja agora, :), posso perguntar que andas a fazer ai nesse triangulo de terra seca? Ja percebi que estas em relacoes internacionais ou coisa parecida...

Susaninha disse...

Bruno,
isto não é tão mau quanto parece na TV, pelo menos do lado israelita.

René Alan,
Obrigada.
A terra aqui não é tão seca quanto parece, caso contrário as disputas seriam bem mais fáceis de resolver.
Eu estou aqui a trabalhar... a ver se resolvo o conflito... sim, estou em relações internacionais.
:)

SAM disse...

Sei que o meu comentário poderá estar chegando tarde, afinal, já se passaram alguns meses.

Mas gostaria de o poder deixar na mesma, se me é permitido ;-)

Sou um bahá'í português que já esteve em Haifa (no meu caso, de peregrinação pelos templos bahá'ís) e achei interessante os seus comentários, pelo facto de os seguranças terem um conjunto de regras que são impelidos a seguir. A mim, por exemplo, não me deixavam passar caso não tivesse o crachá que me identificasse como peregrino, possivelmente, por questões de segurança. Agora a questão dos templos e da roupa é transversal a quase todos os locais considerados sagrados. Chamou-me a atenção as placas no Vaticano ou, noutro local que de sagrado pouco deve ter: o Senado Brasileiro. Com calções e roupas que mostrem, como dizes, carne, são desaconselhados nesses locais. É uma regra que, a mim, não me afecta muito, mas a muitos parece incomodar...

Agora, quanto ao facto de se haver lutas em alegado nome da religião, não a censuro. Aliás o que nós, bahá'ís, defendemos é que todas as religiões possuem uma origem num mesmo Deus e que por isso essas lutas pelo primado de uma religião sobre outro são incoerentes com os princípios de amor defendidos por todas as religiões. Assim, os profetas não são todos bahá'ís, mas a Fé Bahá'í reconhece o grau divino de todos Eles.

Quanto aos cafés em Haifa... Nem me diga! Pequeno almoço em hotéis quatro estrelas era uma variedade... peixe, peixe, peixe, iogurte com ervas, ervas com iogurte e mais peixe. Imagine como que eu passei dez dias por lá...
;-)

Afonso disse...

Olá susana.
Ao ler o teu post não poderia de não comentar um bocadinho...

Sou bahai e tive em Haifa durante um ano a trabalhar (imagina só...) no departamento de segurança do Centro Mundial Bahai. Como tal sei algumas regras de dress code, e de comportamento dentro dos jardins, e do Santuário(não é um templo).
Sim...tens que ter os ombros totalmente cobertos, os joelhos também, a barriga também, e o teu decote deve ser moderado...a unica excepção eram as noivas, que iam tirar as fotos do seu casamento nos jardins bahais, e como sendo um dia especial, a gente dava-lhes um desconto, e não nos importavamos muito com os ombros...

E sim...pessoas gritaram comigo, porque lhes neguei a entrada...
Não é que sejas uma pecadora, e que sejas a tentação do diabo, a tentar seduzir os jovens seguranças...é apenas uma questão de respeito...muitas pessoas não entendiam isso...como a gente dizia ke tinha ke ter ombros cobertos, as pessoas iam buscar jornais e mapas, e cobriam-se com isso...mas não importa o cobrir...o que realmente queriamos era que as pessoas fossem um pouco moderadas naquilo que vestissem, porque estariam a entrar em perimetro sagrado, para os bahais. nao diziamos ke não podiamos ver carne...podias ir de top,e de calções...dd que cobrisses os ombros e os joelhos...

Quanto as lutas...acho que o amigo Sam, já explicou bem, mas também gostava que acrescentar, que o confronto fisico é proibido na fé bahai...aliás...pesquisa sobre os sofrimentos dos bahais no irao, ve quem sofre na pele...

quanto ao pequeno almoço...pa croissant e café, podias ter ido a Hadar, ou ao topo do monte carmelo a merkaz, ou entao a avenida ben gurion...

Aguardo um feedback :)

melhores cumprimentos

afonso